Especialistas respondem as principais dúvidas sobre sustentabilidade na construção civil

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sustentabilidade na construção

Segundo Lúcia Mourad, Gerente da Feicon, falar sobre sustentabilidade na construção civil levanta assuntos para uma tarde inteira e a gente concorda. Afinal de contas, pensar em sustentabilidade dentro de um projeto construtivo ainda envolve quebra de tabus e estigmas. Por isso, durante a live “Sistemas Construtivos Sustentáveis” realizada semana passada, especialistas mostraram uma nova perspectiva de se entender tanto os materiais quanto os sistemas construtivos de uma forma mais inteligente com pensamento de longo prazo.

Além disso, deram exemplos práticos para comparar custos, benefícios e diferentes formas de se considerar uma construção sustentável, como as construções modulares, por exemplo.

Não era para menos, o papo rendeu muito! Algumas dúvidas foram respondidas durante a live e, abaixo, você encontra a opinião dos especialistas Luiz Henrique Ferreira, CEO da InovaTech Engenharia, Silvio Gava, Diretor Executivo da Do.Construtora e Martin Paul Schwark, Responsável Técnico da Kronan Tecnologia em Construção Civilsobre diversas questões relacionadas com a sustentabilidade na construção civil. Confira!

1. Qual o perfil de uma empresa que deseja inserir-se no sistema construtivo sustentável e manter-se neste mercado?

Luiz Henrique Ferreira: Uma empresa que está disposta a quebrar paradigmas e principalmente com visão de longo prazo. Sem dúvidas, sustentabilidade é algo a ser pensado no longo prazo.

Silvio Gava: Em resumo, é uma empresa com visão de longo prazo, mais atenta a tecnologias e sistemas, com propósito e um posicionamento claro da relação dos impactos da construção civil para com o meio ambiente.

Martin Paul Schwark: Uma empresa com identidade empresarial inconformada com os impactos, desperdícios e os atrasos tecnológicos da indústria da construção. Seus líderes devem ter muita resiliência e convicção, pois os dois atributos ainda encontram muita resistência no mercado. No entanto, uma vez em marcha, há uma sensação gratificante de estar caminhando na direção certa.

2. As construções a seco, popularmente conhecidas como sistemas drywall, são uma grande tendência nos Estados Unidos e outros países desenvolvidos. Aqui no Brasil já temos exemplos desse modelo?

LH: Sim, temos inúmeros obras com construções a seco. Importante ressaltar que as divisórias internas em gesso acartonado são utilizadas em larga escala no mercado corporativo, e no residencial estão ganhando bastante força nos últimos anos. Além do gesso acartonado, os sistemas de wood frame e light steel frame estão ganhando espaço, junto com paredes pré-fabricadas em painéis.

SG: Os sistemas de drywall já vem sendo utilizados no Brasil há muito tempo, principalmente em hotéis, flats, lojas e edifícios comerciais. Nos residenciais no final dos anos 90 já estavam em uso, porém por falta de informação e mau uso do sistema para redução de custos, as áreas comerciais começaram a estigmatizá-los como algo “pior” em relação a alvenaria, o que não é verdade. Este foi o grande fator da falta de impulso. Hoje com a Norma de Desempenho e também o advento da Sustentabilidade ele retomou seu lugar e está mais aceito popularmente e muitas construções já fazem uso deste sistema por completo, ou parcial (paredes flexíveis). Uma região de larga escala e bem aceito é na região Sul. Acompanhei muitas obras em Poá e todas faziam uso do drywall, ou mesmos outros sistemas a seco compatíveis. 

MP: Já há bastante obras em LSF no Brasil, assim como de outros sistemas construtivos. Os países desenvolvidos têm em comum a utilização de sistemas construtivos industrializados, racionalizados, eficientes e sustentáveis. Cada país tem algum sistema construtivo que prevalece, a exemplo do LSF nos EUA, WF no Canadá e construções com painéis de concreto na Finlândia. Mas as obras mais fascinantes, a meu ver, mesclam estes sistemas com inteligência, incluindo ainda a construção modular, madeira CLT, entre outros.

3. O projeto da impressora 3D é um sistema futuro de construção sustentável?

LH: Eu acredito que a impressora 3D é uma tecnologia fantástica para fabricação de componentes, como soleiras, beirais, detalhes de fachada, etc. Eu não acredito em impressão em larga escala de casas, pois o “setup” da impressora é algo complexo e caro. No caso de impressão de edifícios multifamiliares, existe o desafio de resistência de materiais, principalmente para impressão de lajes.

SG: Eu acredito que a impressora 3D veio para contribuir e disseminar a possibilidade de fabricação local de qualquer insumo. Inclusive escrevi um artigo constante na página da Do.Construtora no LinkedIn sobre isso. Não acho sustentável, por exemplo, uma matéria prima rodar o mundo para ser transformada para voltar o uso ao local de origem, e esta tecnologia de impressão pode contribuir muito na solução disso. Daí a imprimir um empreendimento inteiro, creio que ainda não estamos prontos, mas a tecnologia tem uma velocidade difícil de prever e acredito que se senão for este o caminho, será algo bem similar em breve, num processo de industrialização ou mesmo modulação.

MP: Assisti recentemente a um seminário com um especialista da ETH de Zurique a respeito do tema. Ele diz que não conhece outro sistema com maior distância entre o que dizem e o que é realidade. Os desafios para utilização desta tecnologia para a obra como um todo tem vários obstáculos ainda sem previsão de serem superados. O que hoje prevalece é a convicção de ser uma ótima solução para produção de componentes em indústria, não para uso ao ar livre em condições pouco controláveis.

4. As smartcities serão uma nova tendência de sistemas construtivos sustentáveis?

LH: Smart Cities são cidades pensadas de uma maneira diferente e inteligente, e logicamente com aspectos de sustentabilidade e eficiência. As construções sustentáveis são uma pequena parcela de uma Smart City. Contudo, não necessariamente uma Smart City possui obrigatoriamente construções sustentáveis.

SG: Creio que ainda estamos longe disso, pois ainda não evoluímos de forma consistente nem em construções sustentáveis e nem em empresas com foco neste propósito.

MP: Gosto do tema como visão, mas entendo que o problema ainda é bem mais profundo, e estes conceitos serão consolidados ao longo do tempo. A própria ideia de Smart é variável no tempo – o que hoje parece ideal, logo mais parece superado… Vide os impactos da atual pandemia nos conceitos de moradia, trabalho e deslocamento.


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5. Em relação ao reaproveitamento de resíduos. Gostaria de ouvir a opinião de vocês em relação ao subaproveitamento de Usinas de Reciclagem e descarte inadequado, aterro de inertes, aterros sanitários, etc

LH: A gestão de resíduos na construção civil é viável a partir do momento em que se pensa na segregação no momento da geração do resíduo, pois a reciclagem é um processo que pressupõe o resíduo livre de contaminantes e segregado de outros. Os processos de reciclagem funcionam bem a partir do momento em que se pensa na cadeia como um todo, pois juntar tudo para depois separar na usina de reciclagem é algo caro e que não viabiliza o processo, além de ser uma atividade insalubre para quem separa.

SG: O processo de reciclagem na construção civil ainda é incipiente, e depende muito da atitude de cada organização. Atender somente a Política Nacional de Resíduos Sólidos, utilizar caçambas legais, cadre, ou fazer uso de CTR´s não é suficiente, envolve muito mais que isso, envolve toda cadeia de fornecimento, desde a questão logística, projetos que determinam sistemas que gerem menos resíduos, logística reversa e mesmo processos que possibilitem segundos usos. Já consegui índices de desvios de aterro superiores a 85% ao volume gerado e considerando a totalidade de empreendimentos, e não somente em um único projeto, e sei que é possível, mas demanda esforço de influência sobre fornecedores, mudança de comportamento e uma atuação top-down na gestão para convencimento.

MP: Além do lixo da obra, que ainda demanda uma mudança na atitude de quem constrói, há o problema da demolição, que tem um volume de descarte alto.Houve grande evolução neste tema, mas o que temos visto de países mais desenvolvidos nos encoraja a acreditar que há muito mais a fazer. Por exemplo, na Inglaterra, hoje 100% dos resíduos de demolição de concreto são reciclados, e os momentos de transporte de materiais pesados foram reduzidos drasticamente nas últimas décadas, acelerados por evoluções em tecnologia, legislação e cultura do setor.

6. Quais os métodos para deixar esse sistema menos custoso para essa faixa do mercado, pois realmente tem muitas vantagens, principalmente com relação ao tempo curto de entrega?

LH: Eficiência em todas as etapas do processo, investimento pesado em projeto e economia de escala. Quanto mais gente fazendo, mais barato fica. Não adianta pensar em construção industrializada e achar que dá para fazer sem BIM, por exemplo. A equação financeira é totalmente diferente.

SG: Num mercado pulverizado como é a construção civil, pois grandes empresas concorrem por vezes com desenvolvedores pessoas físicas, o avanço das tecnologias somente poderá se dar com escala, de tal modo que a mesma consiga competir com os custos da informalidade. Outro caminho é o da fiscalização em todos e não só nas grandes empresas, este mais difícil atualmente não?

MP: A diferença de custo existe enquanto estiver concorrendo com o informal, o mal construído, o ilegal, e não houver escala. Ademais, tenho visto que as comparações não são feias de forma sistêmica da obra, e ainda menos olhando o ciclo de vida da edificação. Tecnologias racionalizadas, industrializadas, se comparadas de forma inteligente com construção com qualidade e legalidade equivalentes, não são mais caras, e ainda têm o potencial de redução de custos por economia de escala.


Agora que você já recebeu dicas valiosas sobre a sustentabilidade na construção civil com foco em sistemas construtivos sustentáveis, veja também outras 5 dicas para aplicar a sustentabilidade em sua obra.

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