Gestão de obra: como fazer um bom trabalho em tempos de Covid-19?

É possível garantir o andamento das obras com a pandemia? Especialistas da InovaTech e da Lorenceto dão dicas para uma boa gestão de obra.

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Mulher de capacete de proteção medindo a temperatura corporal de trabalhador da construção civil.
Foto: Fábio Matavelli

Aumentar a eficiência em um momento de crise econômica é muito importante — e em tempos de pandemia, ainda mais necessário. Mas como fazer um bom trabalho na gestão de obra durante este período cheio de incertezas?

Para responder essas e outras perguntas, a Feicon Batimat fez a live Gestão de obra em tempos de Covid-19 – a otimização de recursos para uma nova realidade, que aconteceu no dia 13/05. Com mediação de Mayra Nardy, Diretora da Feicon, a transmissão reuniu Danilo Lorenceto, diretor da Lorenceto Engenharia, e Luiz Henrique Ferreira, CEO da InovaTech Engenharia. O conteúdo completo está disponível no canal no YouTube da Feicon!

Neste momento, é importante entender as possibilidades de lidar com o trabalho no canteiro de obras, afinal estamos diante de muitas incertezas provocadas pelo novo coronavírus. Além disso, é muito importante que todos possam ter as melhores práticas em relação ao cuidado dos profissionais envolvidos nos projetos.

Ao mesmo tempo, garantir a segurança, manter a produtividade e a qualidade dos serviços prestados e reduzir custos também são desafios que todo projeto de construção precisa lidar durante a gestão de obra. Para você saber como fazer isso, confira os principais pontos da transmissão e, também, a resposta para todas as perguntas que foram feitas durante a conversa!

“Precisamos repensar a construção”

Luiz Henrique Ferreira, CEO da InovaTech Engenharia

“Temos que propor novas ideias e buscar caminhos, afinal esse é um momento para aumentar a eficiência na gestão de obra. Além dos desafios da crise econômica, por questões de saúde não podemos ter gente concentrada em canteiros de obras ou indústrias, por isso vamos trabalhar com diversas restrições que demandam refletir sobre vários aspectos.

Esse momento é a prova concreta de que precisamos repensar a construção. Afinal, como executar atividades com menos pessoas e mais tecnologia? A indústria automotiva aumentou a produção por meio da tecnologia, qualificou a mão-de-obra e não gerou desemprego. Do mesmo modo, podemos fazer isso no setor de construção.

É preciso repensar também o valor agregado das obras. O momento permite isso: a demanda foi reduzida e, ao mesmo tempo, podemos ver o fim dessa fase em nosso horizonte (que será quando acabar o isolamento social e quando a vacina chegar). Durante esse tempo, podemos investir em qualificação e nos prepararmos para o pós-crise, pois a queda na demanda nos dá tempo para isso. Dessa forma, poderemos contribuir ainda mais com a retomada da economia.

Devemos ainda investir em modernização para fazer mais e, assim, resolver problemas de déficit habitacional. Quando falamos nessa modernização, falamos em quantidade e produção em larga escala, e temos exemplos de recursos tecnológicos para isso, como o BIM [plataforma unificada para Modelagem da Informação da Construção]. Ou a Casa24h, projeto totalmente tecnológico que também é elogiado pelos trabalhadores da construção.”

“Quem se dará bem é quem se adaptar”

Danilo Lorenceto, Diretor da Lorenceto Engenharia

“Nunca vi um pessimista ser bem-sucedido. Por isso, temos que ser otimistas, aprender com o momento e enxergar oportunidades nessa crise. Logo, cabe a nós entendermos o que está acontecendo, o que devemos fazer com o que temos e, também, prever alguns cenários, sem deixar de adaptar algumas medidas ao longo do caminho para agir melhor no pós-crise.

Durante esta pandemia, muitas obras ficaram paradas, outras não, e nem todo mundo sabia agir no começo. Foi preciso repensar em diretrizes, fluxo de caixa, pagamento de fornecedores e outros pontos de uma gestão de obra, visando equilíbrio. Paralelamente, as empresas pensarem em primeiro lugar nas pessoas e, também, em medidas de prevenção de contágio (evitar aglomerações nas obras, por exemplo) e ações para manter empregos. Depois, avaliou-se o impacto das mudanças na produtividade.

Feito isso, agora é o momento para pensar em maneiras de melhorar a produção, produzindo mais com menos. Podemos melhorar muitas coisas e temos uma série de demandas. A industrialização gera capacitação profissional na cadeia produtiva e, dessa maneira, conseguir produzir mais e melhor, com menos recursos. Isso tudo melhora a produtividade e contribui para atacar o déficit habitacional.

Essa capacitação permite produzir mais, o que traz ganhos como aumento de salário e plano de carreira para os trabalhadores da construção civil. Com a queda atual da demanda, temos tempo para nos qualificarmos em todos os níveis, do operário ao diretor. Depois dessa fase difícil, quem mais vai se dar bem é quem se adaptar às mudanças.”

Perguntas sobre gestão de obra durante a pandemia

Recebemos várias perguntas durante a live sobre gestão de obra. Veja cada uma delas respondidas pelos nossos especialistas:

Pergunta: Há um conselho que esteja ou desenvolveu algum protocolo para esse mercado neste momento?

Luiz Henrique Ferreira, CEO da InovaTech Engenharia: O SINDUSCON e a CBIC estão com diversas iniciativas de procotolos para prevenção da COVID-19 em obras. No site do SINDUSCON você poderá fazer download das cartilhas elaboradas por eles para canteiros de obras.

Danilo Lorenceto, Diretor da Lorenceto Engenharia: Estou de acordo com o Luiz Henrique.

Será que a terceirização de alguns setores não fica melhor para minimizar os custos das empresas?

Luiz Henrique: a terceirização é uma importante ferramenta para execução de serviços que não são “core business” das empresas, porém acredito que a minimização de custos não depende de terceirização, e sim de eficiência operacional e boa gestão de obra. A terceirização quando implantada sem governança e sem gestão pode levar a custos extraordinariamente mais altos.

Danilo Lorenceto: Eu acredito sim que a terceirização seja um bom caminho. Porém, mesmo terceirizando, é importante entender que a empresa contratante ainda é corresponsável junto com a contratada, principalmente em relação a legislação trabalhista. Então, se a terceirizada não for uma empresa com respaldo para isso, “o molho pode ficar mais caro que o peixe”. Outro ponto já citado pelo LH é que a terceirização vai de encontro com a expertise da empresa naquele trabalho. Se minha operação anda ruim, ou eu não consigo controlar (custo, produção), por mais que em um primeiro momento pode se parecer mais caro a terceirização, ela pode ser um bom caminho, já que sua ineficiência operacional está prejudicando sua performance. Existe um estudo chamado: “Análise de Make or Buy”, que fala exatamente sobre isso, vale a pena a leitura.

Pequenas startups vem surgindo no setor da construção civil, com a proposta de melhorias de processos, otimização, e redução de custo. Como vocês veem essas ações independentes?

Luiz Henrique: Acredito muito no movimento das startups, o setor da construção civil tem uma infinidade de oportunidades de melhoria de processos e ganho de agilidade, e as startups possuem esses drivers em seu DNA. Na minha opinião, as startups vinculadas a HUBS de inovação do setor da construção civil terão mais chances de sucesso do que aquelas que procuram alçar voo solo, uma vez que o mercado da construção civil tem inúmeras complexidades que muitas vezes são menosprezadas por quem vê de fora.

Danilo Lorenceto: Eu vejo que temos muitos problemas a serem sanados, ou seja, que existem muitas oportunidades para produtos e serviços, e venho vendo uma crescente onda de Start-ups de construção civil. Porém, ainda vejo uma resistência do mercado, por ser extremamente tradicional. Além do desafio de resolver o problema, existe o desafio de mudança de mentalidade e abertura para novas soluções. Acho que cada vez mais elas vão ganhar espaço, mas vale ressaltar, isso vai acontecer, sempre que elas resolverem problemas de verdade e não o mais do mesmo, que também vejo por aí.

Vocês veem a possibilidade de implantação de energia solar fotovoltaica nas novas construções?

Luiz Henrique: Com certeza a co-geração por fonte solar é algo que veio para ficar. Custos cada vez mais baixos da tecnologia viabilizam projetos, além de clareza na regulamentação. Projetos de fotovoltaicos possuem períodos de retorno longos, daí a importância de clareza na regulamentação e tarifas.

Danilo Lorenceto: A utilização da energia solar, tanto para co-geração quanto para o aquecimento da água (chuveiro e piscina), na minha opinião é um caminho sem volta, mas ainda é um mercado em amadurecimento. Cada vez mais as certificações sustentáveis estão sendo buscadas pelas construtoras e pesando na decisão de compra do cliente final. É importante esse mercado continuar a se desenvolver internamente no Brasil, dando viabilidade econômica mais interessante do que é hoje.

A construção é o setor que relata maior impacto negativo da pandemia, diz o IBRE. O que fazer para poder minimizar esse impacto?

Luiz Henrique: Como todos os setores com mão de obra intensiva, o setor da construção está tomando os cuidados para preservar a saúde de seus colaboradores.

Danilo Lorenceto: Olhar para dentro de casa e verificar o que podemos melhorar: repensar em quais pontos posso desenvolver minha produtividade, pensar em possíveis cenários, testar, evoluir. Você vai ver que temos muita coisa para melhorar dentro de casa e esse momento pode ser aproveitado para isso, e, claro, seguindo todas as orientações dos órgãos competentes.

Além de o setor imobiliário estar parado, como fica para qualificar os colaboradores nesse período?

Luiz Henrique: Houve uma explosão de webinars e cursos online gratuitos, além de lives como a que participamos, que podem ser utilizadas para qualificar trabalhadores com acesso à internet. Para aqueles que não possuem acesso à internet, o processo de qualificação deve ser semelhante aos que já ocorriam antes da pandemia, nas reuniões diárias de segurança do trabalho nos canteiros e nas diversas iniciativas de qualificação existentes na rotina das construtoras.

Danilo Lorenceto: Concordo com o Luiz Henrique.

A industrialização na construção civil é boa por uma parte pois aumenta a produtividade e a rapidez do processo de construção, porém há contrapontos, pois aumenta o desemprego na construção. Como minimizar isso?

Luiz Henrique: como mencionado na live, existem aproximadamente 8 milhões de moradias para serem construídas, e este déficit permanece constante ao longo dos anos, ou seja, não estamos conseguindo solucionar o problema. Assim como foi na indústria automobilística, a saída é a qualificação da mão-de-obra para poder produzir mais moradias, com maior qualidade, mais sustentabilidade e maior valor agregado por homem x hora, que em tese deverá aumentar a remuneração média dos colaboradores sem gerar desemprego.

Danilo Lorenceto: Não aumenta o desemprego, pelo contrário, ela dá a oportunidade de capacitar mais esta mão de obra, fazendo com o que o que ela produz tenha alto valor agregado, gerando também uma estabilidade maior de carreira, frente ao grande número de informais do setor hoje em dia. O mercado é muito grande, há uma grande demanda, vai precisar de gente, e gente cada vez mais qualificada, produzindo mais e melhor.

Além do BIM, qual o curso de tecnologia indicado para um estudante de engenharia que quer entrar no mercado da construção, durante ou após a pandemia?

Luiz Henrique: eu recomendo para meus estagiários aprenderem inglês, aprenderem linguagem de programação Python e aprenderem sobre empreendedorismo.

Danilo Lorenceto: Microsoft Project, Navisworks, e não apenas tecnologia, mas aproveitar esse momento para se capacitar em diversas áreas é muito pertinente, recomendo assim: Gestão de Projeto, Inglês e Vendas.

Qual é a porcentagem de funcionários preparados no mercado para obras moduladas?

Luiz Henrique: excelente pergunta. Considerando que a construção modular hoje representa menos de 1% do volume total de construção, eu diria que é um número semelhante. Importante ressaltar que construção modular é uma pequena fração da construção industrializada, que pode ser pré-fabricada, paredes de concreto moldadas in loco, light steel frame, etc.

Danilo Lorenceto: Não tenho ideia do percentual mas acredito ser um percentual baixo, inclusive do volume de obras. Analisando “o copo meio cheio”, vejo um mar de oportunidades. A industrialização da construção civil, seja por meio de obras modulares ou outros sistemas construtivos é um caminho sem volta, quem já estiver preparado, ou se preparando sai na frente com certeza, e quem chega primeiro bebe água fresca.

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