Rejeitando formas chamativas em favor de edifícios em harmonia com seu ambiente, o arquiteto Kengo Kuma – prestes a tornar-se mundialmente famoso por seu estádio para os Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio – começou seu fascínio pela arquitetura quando tinha 10 anos e seu pai o levou para visitar o famoso Yoyogi National Gymnasium, de Kenzo Tange, construído para os Jogos Olímpicos de Verão de 1964 em Tóquio, com seu mastro alto e telhado inclinado violentamente, como um disco obliquamente emergindo da terra, uma obra-prima da engenharia, que continua a ser o exemplo mais deslumbrante do modernismo japonês.

O mais famoso arquiteto japonês de quem nunca ouviram falar pode estar com os dias de anonimato contados, já que após o projeto da Zaha Hadid, inicialmente vencedor para ser oficialmente o Estádio Nacional paras as Olimpíadas de 2020 – que se assemelhava a um enorme e lustroso capacete de bicicleta -, foi alvo de críticas por dezenas de arquitetos japoneses, incluindo o vencedor do prêmio Pritzker Fumihiko Maki e o proeminente pós-modernista Arata Isozaki.

Chegaram a dizer, em uma carta ao conselho de esportes do Japão, que foi um “erro monumental” e que seria “uma vergonha para as gerações futuras,” memoravelmente descrevendo o projeto como uma “forma monótona, lenta, como uma tartaruga esperando o Japão afundar para que ela possa nadar para longe”. Hadid, ainda viva na época, respondeu que estes detratores estavam com raiva que um arquiteto japonês não tinha sido escolhido. Kuma foi signatário de uma petição e outros arquitetos continuaram protestando contra seleção de projeto inicial e em 2015 o primeiro-ministro, Shinzo Abe, cancelou a escolha, foi organizado novo concurso e a proposta de Kengo foi selecionada.

Deixando a polêmica de lado, quem ganhou com toda a confusão foi o Japão, já que a visão única e desconstruída de Kuma revela a cada dia feitos notáveis. Ele conhece bem toda a área onda está sendo construído o estádio, um parque repleto de árvores de ginkgo, erguidas no início de 1900 para homenagear o Imperador Meiji, onde passa diariamente num trajeto de meia hora entre sua casa no bairro mais tradicional de Kagurazaka e o escritório no bairro elegante de Minami-Aoyama.

Essa peculiaridade, aliada ao profissionalismo do arquiteto, vai apresentar ao público, quando estiver pronto em novembro de 2019, uma obra de arte com inspirações como as de santuários japoneses e pagodes, sendo composto de estruturas pré-fabricadas de madeira e aço, que vai usar o paisagismo natural do parque para ajudar no controle de temperatura do local. Na fachada, formada por terraços escalonados, plantas da mesma forma que ao redor do estádio. O profissional revela que a escolha do material principal ser a madeira – um elemento muito presente em sua arquitetura – foi pela manutenção, que pode ser simples e durável.

Com viés ecológico, a construção vai contar com fonte de energia limpa ao incluir painéis solares que serão esteticamente integrados ao projeto. Além disso, graças à fisionomia do edifício, poderão ser aproveitando as constantes brisas da região para diminuir a utilização de ar-condicionado, por exemplo.

Com uma arquitetura que parece à primeira vista transpirar tradição, essa suntuosidade cria alusões, truques de visão e limites incertos. Ocupando 72 mil metros quadrados, pronto terá capacidade de 68 mil pessoas, sendo expansível para uso pós Olimpíada para 80 mil.

Kuma é uma fonte constante de paradoxos e ironias, muitas vezes faz declarações demagógicas de modéstia arquitetônica em nome de sua própria marca. Porém, quem bem o conhece sabe que é tudo em prol de mudanças na definição da já batida arquitetura, por uma renovação de ares e ideias, derrubando preceitos e preconceitos.

 

CRÉDITO FOTO: Cortesia Conselho Desportivo do Japão

 

Conteúdo Proprietário – Reed Exhibitions Alcantara Machado
Produção: A4&Holofote Comunicação